As ações do governo em incentivo à produção do Queijo Artesanal em Minas Gerais foram tema da reunião realizada nesta quinta-feira (8/10) pela secretária de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Ana Maria Valentini, com produtores de Alagoa e Aiuruoca.

No primeiro município, ela se reuniu com a diretoria da Associação dos Produtores de Queijo Artesanal de Alagoa (Aproalagoa). O encontro foi realizado no Centro de Eventos da cidade - em um espaço aberto, com todos os protocolos de segurança sanitária contra a Covid-19 - e contou com a presença de dez pessoas.

“A produção de queijos artesanais em Minas Gerais é uma grande esperança para trazer renda para as famílias, principalmente aos agricultores familiares, em nosso estado. Recentemente, as regiões de Alagoa e Mantiqueira foram caracterizadas e neste momento nossos esforços estão voltados para a elaboração dos regulamentos desses queijos. Ao mesmo tempo em que ajuda os produtores, a regularização também traz segurança para os consumidores”, afirma Ana Valentini.

O presidente da Aproalagoa, Francisco Barros, conhecido como Chiquinho, disse estar agradecido, em nome de todos os produtores de queijo da região, pela visita da secretária. “Tivemos a oportunidade de tirar nossas dúvidas, apresentar nossos problemas e pontuar onde acreditamos que o governo poderia nos ajudar. Foi um grande marco para nós, produtores, que nunca estivemos tão perto do governo”.

Depois da reunião, a secretária Ana Maria Valentini visitou a Fazenda Rio Acima, propriedade do agricultor familiar e produtor do Queijo Artesanal de Alagoa Leandro Siqueira Chaves. Ele conta que herdou o ofício do pai, que desde a década de 90 já era produtor.

“Ele se aposentou e passou as propriedades para mim e meu irmão. Hoje a gente produz em torno de 50 kg por dia, sendo queijos de 1 e 5 kg. Não compramos leite de fora, produzimos tudo somente com o leite que é tirado aqui em nossa propriedade”, conta.

História e tradição de Alagoa

A história do Queijo Artesanal de Alagoa começou na década de 1920, quando o casal de italianos Pascoal Poppa e Luiza Altomare Poppa se mudou para o município. Ao perceberem as semelhanças climáticas entre a cidade e sua terra natal, Parma, resolveram experimentar a produção de um queijo no modelo de fabricação do parmesão.

“Deu muito certo e o queijo rapidamente conquistou mercados do Rio de Janeiro e São Paulo. Ao verem o sucesso do casal italiano, produtores locais também passaram a fabricar o queijo, mas de forma artesanal. Eles fizeram algumas adaptações no sabor e características para agradar os consumidores brasileiros, que costumam preferir um queijo mais macio e um pouco menos curado”, explica Júlio César Fleming Seabra, engenheiro agrônomo da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais (Emater-MG), vinculada à Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa).

Ainda segundo ele, o último levantamento da cidade apontava 138 produtores do queijo artesanal, com produção estimada de 1,5 tonelada por dia. “O Queijo de Alagoa se diferencia pela forma de produção. Ele é aquecido e misturado com fermento e coalho. Depois é dessorado e colocado em formas por 1 a 3 dias. Só então ele passa pela salmoura e, em seguida, é colocado para maturação e comercialização”, detalha Seabra.

Essa forma de produção ganhou novos destinos e, atualmente, se encontra em muitos municípios da região da Serra da Mantiqueira em Minas Gerais.

Mantiqueira de Minas

Seguindo a agenda, a secretária Ana Valentini viajou para Aiuruoca, onde conheceu as instalações da Queijaria do Tutti, de Agricultura Familiar e que já está pronta para a vistoria final do IMA. Ela também se reuniu com o presidente da Associação dos Produtores de Queijo Artesanal Mantiqueira de Minas (Apromam), Luís Antônio Guimarães, o Tuca.

“Receber a secretária Ana Valentini aqui, na nossa terra, no nosso local de trabalho, para ver as nossas dificuldades e alegrias do dia a dia, é uma coisa que nos deixa sem palavras. É muito bom para nós termos um órgão tão importante, como a Seapa, disposto a conversar com os nossos mestres queijeiros, nos guiando sempre para frente”, disse Tuca.

Ainda em Aiuruoca, a secretária conheceu a fazenda Teixeira, do produtor de Queijo Artesanal Mantiqueira de Minas Francisco de Franco Maciel Lopes, o Tutti.

Ele conta que há 9 anos trabalha com o queijo artesanal. “Temos uma produção diária de 700 litros de leite, tudo muito bem selecionado e higienizado. Produzimos em média 65 kg de queijo por dia. Quando mais fresco, é um produto mais macio e suave. Já quando há uma maturação maior, de três ou quatro meses, o queijo fica com o sabor mais forte, uma casca dura e, por dentro, ele praticamente desmancha ao colocar na boca”, explica Tutti.

Flora Aparecida Teixeira Castro, coordenadora Técnica Regional da Emater-MG de Lavras, destaca a importância cultural, social e econômica do Queijo Artesanal Mantiqueira de Minas para a região e todo o estado. “É um queijo tradicional, feito com leite cru, soro, fermento ou pingo, e coalho coagulante ou sal. A diferença aqui é que ele é aquecido durante o processo de produção, o que altera todo o produto”, detalha.

Ainda segundo ela, a produção de queijo artesanal em Aiuruoca é de 285 toneladas por ano. O queijo Mantiqueira de Minas tem como característica a consistência semidura, cor amarelo palha, aroma adocicado e sabor levemente picante. “Tem crosta fina e lisa, não possui olhadura, tem formato cilíndrico e o peso oscila de 1 a 5 kg”, completa Flora.

Para a secretária de Agricultura Ana Valentini, o balanço das agendas em Alagoa e Aiuruoca foi positivo. “Essas visitas nos permitiram conhecer mais da realidade desses produtores, suas maiores demandas e as dificuldades que enfrentam para produzir. É fundamental mantermos essa proximidade e um canal permanente de diálogo para ouvirmos suas demandas e buscarmos soluções para esta iguaria que projeta o nome de Minas mundo afora”.

Ela também lembrou que o Dia Internacional da Valorização dos Queijos de Leite Cru, comemorado em 17 de outubro, é uma data importante para a Seapa e será celebrada com uma live da Emater-MG no dia 20/10, às 15h, transmitida pelo canal do YouTube da empresa.

“A live vai mostrar toda a pluralidade da produção artesanal dos queijos mineiros produzidos com leite cru e terá a participação dos presidentes de associações das 13 regiões produtoras caracterizadas do estado, além de debates sobre a relevância econômica e cultural deste setor. Estão todos convidados”.

Caracterização e regulamentação

Em junho deste ano o Governo de Minas, por meio do Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA) e da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais (Emater-MG), vinculadas à Seapa, identificou a região da Serra da Mantiqueira como produtora de queijos artesanais. As portarias contemplam 10 cidades mineiras, entre elas Alagoa, agora reconhecida como produtora de "Queijo Artesanal de Alagoa", e os municípios de Aiuruoca, Baependi, Bocaina de Minas, Carvalhos, Itamonte, Liberdade, Itanhandu, Passa Quatro e Pouso Alto, como fabricantes de "Queijo Artesanal Mantiqueira de Minas".

A caracterização das regiões e a publicação das portarias foi possível após estudos da Emater-MG, realizados em parceria com os produtores. O próximo passo será a elaboração dos regulamentos desses queijos. Depois desse processo, os produtores poderão solicitar junto ao IMA o registro das queijarias e, posteriormente, o Selo Arte para a venda dos queijos em todo o território brasileiro.

Já em agosto de 2020, o governador Romeu Zema assinou o decreto que regulamenta a produção e comercialização dos queijos artesanais em Minas Gerais. A medida visa contribuir para o desenvolvimento do segmento, valorizando os produtos e a cultura regional, além de melhorar o ambiente de negócios e buscar novos mercados. Cerca de 30 mil produtores de queijos artesanais e empreendedores rurais no estado serão beneficiados com a medida.

O produtor de Queijo Artesanal de Alagoa Leandro Siqueira Chaves destaca que, até a assinatura do decreto, os produtores da região enfrentavam dificuldades pela falta de uma legislação. “Agora, com esse decreto, nós, produtores, temos a certeza de que muitas portas irão se abrir. Temos a oportunidade de produzir um queijo tradicional, de qualidade, e resguardado pela lei”, comemora.

O produtor de Queijo Artesanal Mantiqueira de Minas Francisco “Tutti” também elogiou a medida. “Estávamos restritos, não podíamos sair para vender. Eram os atravessadores que vinham e buscavam nosso queijo. Com isso, ficávamos sem a valorização do nosso produto. Esse queijo faz parte da cultura da nossa região e a regulamentação nos ajudará a aumentar a produção, oferecer mais empregos e gerar renda”, defende.

 

Jornalista responsável: José Vítor Camilo

Foto: Seapa/Divulgação