BELO HORIZONTE (08/03/2019) - Muito utilizadas na confecção de artesanatos comercializados no estado, em outras regiões do país e também no exterior, as flores Sempre Viva carregam importância histórica, econômica e sociocultural. Por essa razão, este sistema de agricultura tradicional, presente em municípios da Serra do Espinhaço, pode se tornar o primeiro a ser reconhecido como Patrimônio Agrícola Mundial no Brasil. O selo é concedido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) a sistemas no mundo que atravessaram adversidades ao longo da história e, mesmo assim, foram capazes de manter suas tradições culturais, diversidade agrícola e cumprir uma função ecológica. Até o momento, 57 sistemas foram contemplados.

O processo começou em 2016, quando o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a Embrapa pré-selecionaram cinco locais no país, entre eles a região de Diamantina. No ano seguinte, foi realizada uma ação junto aos apanhadores de flores Sempre Viva e à Comissão em Defesa dos Direitos das Comunidades Extrativistas da Serra do Espinhaço de Minas Gerais (Codecex). Identificou-se que, nesta primeira etapa, dos 30 municípios da Serra do Espinhaço em que a atividade é praticada, a candidatura consideraria inicialmente algumas comunidades rurais de Buenópolis, Diamantina e Presidente Kubitscheck.

“Para solicitar a candidatura, o sistema agrícola deve ser único e atender a algumas características, como possuir uma paisagem notável e diferenciada, rica biodiversidade, segurança alimentar, modelos de gestão diferenciados com sistemas de conhecimento local e tradicional, tecnologias de produção engenhosas, identidade cultural e valores socioculturais utilizados para sua manutenção”, explica Márcia Bonetti, coordenadora técnica estadual da Emater-MG.

Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Federal de São Paulo (USP), Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) foram os responsáveis pela produção do dossiê técnico-científico que conta a história do sistema agrícola tradicional dos apanhadores de Sempre Viva. O documento foi encaminhado à FAO pelo Ministério das Relações Exteriores, em novembro do ano passado, juntamente com o plano de conservação dinâmica elaborado pela Codecex em parceria com o Governo de Minas Gerais, prefeituras e demais parceiros.

Márcia conta que os apanhadores desenvolveram sistemas agrícolas diversificados em variadas altitudes, que vão de 600 a 1.300 metros, e aprenderam a lidar com a paisagem e com todas as adversidades encontradas ao longo dos séculos. No topo da serra, eles soltam o gado em uma parte do ano, coletam e fazem o manejo das flores Sempre Viva. Nas partes mais baixas, realizam o plantio das roças de toco e fazem uso de sementes crioulas, cultivadas ao longo de gerações. O conhecimento é secular e, por meio dele, o homem vem realizando intervenções sustentáveis em regiões pouco atrativas devido às características do solo e relevo. O resultado é um sistema agrícola com uma paisagem notável que tem resistido às mudanças climáticas e sociais, e refletido em importante material genético para o futuro da humanidade.

Em reunião com a secretária de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa), Ana Valentini, a coordenadora da Emater informou que, neste momento, o dossiê está sob avaliação do Comitê de Análise Científica da FAO, formado por pesquisadores dos cinco continentes. Ainda no primeiro semestre, representantes do comitê virão ao Brasil para conversar com os proponentes e parceiros da candidatura. Neste sentido, a coordenadora da Emater reforçou o pedido de apoio do governo, por meio da secretaria, para a recomposição do grupo executivo permanente, responsável pela elaboração de estratégias de apoio ao sistema agrícola tradicional, e a criação de espaços de diálogo com os setores envolvidos na regulamentação da atividade extrativista de flores Sempre Viva.

Para a secretária, o reconhecimento dos apanhadores de flores de Sempre Viva aumenta a expectativa de investimentos, políticas públicas adequadas, geração de empregos e, consequentemente, a renda destas populações. “Esta conquista trará muito orgulho para Minas Gerais e também para o Brasil”, destaca.